terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Quase fim

Senti saudades tuas todos os dias. Mas, em cada um desses dias, esqueci-me de ti. Fiquei tranquila a ouvi-lo por entre a calçada de Lisboa e a chuva burburinha. Tenho saudades dele. É boa a sensação.

Sim, tenho saudades tuas. Mas só por para momentos. A sábia amiga, depois de saber que se passou um mês sem nos vermos, reparou no timing de nos vermos. E fodermos.. Um mês, parece que foi ontem. Hum, apetece-me, mas estava no automático de não te ver. Dá-me algum gozo, finalmente.

Estou em resto de 2009. Para o reveillon quero jantar com amigos, casa, vinho tinto e depois logo se vê. Depois, depois ano novo, vida nova.

sábado, 26 de dezembro de 2009

à procura da pangeia

pouco.mau sinal.

Eu acredito nele

e mais mar

mar

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

mau de todo

Dormi até tarde, falei uma hora com a minha mãe ao telefone, como se falasse com uma amiga. Falei com uma amiga que me vai mandar erva de Amesterdão. Declinei a sugestão da minha mãe em trazer uns frangos, cometi um pecado e peguei no carro, pois o minipreço é uma merda, e fui ao Pingo Doce. Fiquei com 2 euros. Eles jantaram, trouxeram a despensa atrás e não deixaram uns trocos.

Já tinha ligado ao produtor realizador que me contou o dia dele. “Lá estou eu a contar-te a minha vida”. Disse que ligava depois. Nunca sei como vou estar depois de um jantar com a família.

Correu bem, a jardineira estava maravilhosa, modéstia à parte. Escrevi a crónica sobre ela, ou melhor, sobre eles, mentalmente. Mostrei-lhes as fotos das férias e fiquei com um vazio enorme.

Liguei outra vez ao produtor realizado que já vinha a caminho. Achei piada à iniciativa mas disse-lhe que era atrevido. “É atrevido mas não abusivo”. Gosto das frases que diz.

Pensei em lhe dizer que gosto de estar com ele mas preferia trabalhar, que isto está a ser muito rápido mas que ele me faz sentir bem. Faz.

Acabámos por tocar no assunto e falou mais ele do que eu. Depois saiu a correr para apanhar o último metro. “Posso beijar-te ou não?”. Pôde, gostamos ambos. Depois saiu porta fora e eu meti-me na cama. Não trabalhei nada para o jornal mas não foi um dia mau de todo.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Um dia "à altura"

Neste fim de semana, fui ver o mar a Cascais com a amiga que sempre esteve por cá nos maus momentos. Está com uma vida difícil e um amor complicado. De seguida dei de jantar à amiga nova e fomos ao teatro ver uma peça dura mas boa.

Deixou-me no Rato, eu a pensar em ir ao bairro mas não me apetecia, estava com fome, tínhamos jantado à pressa.

Liguei ao produtor realizador que estava no metro, mesmo ali perto, debaixo dos meus pés. “Estou entre o não me apetece e o não consigo resistir”. Sorri e encontrámo-nos Marquês. Estava sentado, com dois livros na mão. Gostei de o ver, fiquei contente. Viemos para cá. Enquanto bebemos três litros de chá, (pois voltei ao álcool zero, tem de ser)contou-me a vida quase toda. “Isto é um striptease”, disse. Ouvi-o caladinha, agradeci que fizesse ele as despesas da conversa. Não teve pressa para se ir embora nem eu o mandei. Lá para as seis, convidei-o a dormir comigo sem dormir comigo. Mostrou-se à vontade com isso: nem quer relações e está bem sem sexo (ou qualquer coisa do género). Deitámo-nos com o Fred Astaire a dançar para nós.

Ele não conseguiu pregar olho, eu senti-me bem nos braços dele. A falta de sono dele levou o meu. Às duas por três dei-lhe uns beijos e ele resistiu. Não beija por aí além mas, mesmo assim, tenho vontade de lhe dar assim uns beijos, meio roubados, meio oferecidos. Lá para as oito decidimos tentar. Tentámos.

Um homem entrou dentro de mim e não eras tu. Lembrei-me de ti mas isso não me impediu de o abraçar e continuar. Parámos a meio, nem sei muito bem porquê. Mas gostei de parar. Não estava a ser nada de especial, gosta de uma posição que tu gostas, e descobri que não tem um sexo por maior. O tamanho interessa, apesar de não ser tudo. És mil vezes melhor na cama... por enquanto. Mas, nem foi por isso, gostei de conseguir mas não me apeteceu chegar ao fim, ainda não estou preparada.

Finalmente adormecemos, ele não ficou para o pequeno almoço e vermos juntos se o meu artigo para o jornal nacional tinha sido publicado, como lhe tinha pedido. Dormi profundamente, mas pouco. Ele mandou-me três mensagens, na última dizia que tinha visto o jornal. Continuei na cama, até ter forças para ir ver o meu artigo. Fi-lo numa esplanada onde não havia pasteis de nata. O querido Sr. Miguel atravessou a estrada para me dizer que estava a almoçar do outro lado da rua. Antes, ao telefone, partilhei com a amiga produtora a pequena grande vitória. Aceitaram um dos títulos que sugeri, mantiveram a entrada, não mudaram nada, a não ser coisas de revisão. Atravessei a rua e fui ouvir os problemas de saúde da mulher do Sr. Miguel que estava meio com o coração nas mãos. A vida é dura.

Ele ligou outra vez e eu gostei. Cheguei a casa, mandei sms a amigos e o amigo de sempre até ligou. Tão querido, estava orgulhoso de ter conseguido publicar o artigo.

Em vez de me ficar a babar fui lavar e arrumar o palacete. O produtor realizador convidou-me para um bolo de chocolate que deixou queimar e eu convidei-o para o cinema. Cumprimos o plano e andámos a pé, de braço dado. Vimos o filme leve, divertido, da rapariga que escreveu um blog de receitas, a partir de um livro da maravilhosa e fabulosa Meryl Streep que o escrevera 40 anos antes. Rimos e sai do cinema com fome, apetecia-me uma omeleta. Ainda o convidei, ainda pensou nisso, mas foi sensato, estávamos ambos cansados e foi cada um fazer a sua omeleta para a respectiva casa. Acompanhou-me ao telefone desde o metro até casa. Despedimo-nos. Percebi que ele me devolveu o apetite. Quando estou ao pé dele, tenho vontade de comer. Não sei o que sinto por ele, não me quero envolver com ele, quero antes trabalhar, mas gosto de estar com ele. É onze anos mais velho, já teve as filhas que queria, é do meio do cinema que trocou durante anos para criar as filhas. Tem coincidências contigo que me assustaram um pouco. A timidez, a falta de iniciativa, criar as filhas e outras coisas que não me lembro. Ah, já sei. Estamos a dar-nos muito em pouco tempo e não nos conhecemos de lado nenhum. Mas gosto da companhia dele e quero fazer coisas com ele. Escrever um filme, realizar qualquer coisa, não sei. Mas, de quando em vez, não resisto àquele olhar de puto adolescente que faz e lá lhe dou umas beijocas.

Amanhã tenho de trabalhar para pagar a renda e devem vir cá os meus pais jantar. Vou gostar de os ver, especialmente depois de publicar um artigo num jornal nacional. Estão orgulhosos. Espero que me desenrasquem uns trocos. Para variar, estou tesa e , mesmo assim, pude contar com os trocos que o querido professor me deu no Grémio. Senti-me triste por isso e por falar com o Sr. presidente 10 anos depois. Falei-lhe do blog, queria estar a falar-lhe do livro. Fiz-me convidada para jantar em casa da amiga produtora, tive saudades tuas, pois que só falámos de homens e relações complicadas mas o sono levou-me a angústia. Tenho de cuidar de mim.

Tu, deves estar em Madrid a curtir com as tuas irmãs. Não obstante, vou adormecer com a sensação de que o meu fim de semana está a ser muito mais interessante que o teu e continuo obstinada em não te ligar. Sem fazer grande esforço.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

gente bonita


Fiz baby-sitting à sereia loirinha. Jogámos poker para crianças.

Quando finalmente falei com a mãe, disse-me que tinha mais era de lutar por ti. Porque é raro duas pessoas amarem-se. Ok. Tomei a decisão de não te ligar, tão determinada como a de não pegar no carro.

No dia seguinte houve a exposição do amigo boa onda. Estive para não ir e ficar para aqui a lamentar-me. Mas a actriz querida, por telefone, deu-me um pontapé para sair à rua. Saí de legs de pijama e tudo. Belo dia. Visitei o amigo gay que se disponibilizou a conduzir à exposição. A caminho de casa, na tasca cibernauta, o Sr. Miguel ofereceu-me laranjas e batatas. Já em casa a amiga produtora ligou, convidou para ir até lá. Estava com o filhote que me vai explicar quem é o pai Natal, um artigo para o jornal. Estava preguiçosa, era apertado para depois o vizinho gay me apanhar. Mas quando desligámos percebi que me devia mesmo dar ao trabalho, e ir vê-la. Não se desperdiçam oportunidades para passar bons bocados com os amigos.

Deliciei-me com a entrevista, comi uma sopa substancial e, de duas, passámos a ser três, depois, quatro e ainda chegou mais um. Conversa e vinho tinto. Produção, cinema, televisão, docs. Que bom ter amigos.

Deixei essa festa e fui com o vizinho gay para a exposição. Que estava muito gira mas com pouca gente. O artista tinha ido jantar. Encontrei gente de sempre e pessoas que não via há anos. E a feiticeira black, linda de morrer, poderosa. Classe. E ainda a amiga do sul, com quem me rio permanentemente. Falei-lhe de ti, mas falei sem ansiedade alguma. E falámos de muitas outras coisas. Da vida dela. Estou convidada par o fim de ano. Que bom ter, a esta altura, um convite delicioso para uma passagem de ano. Há um ano, descobri que tinha comprado um carro ilegal e caiu-me uma gripe fulminante, instantânea.

A festa acabou às três, e estava eu tão animada, ligada. Arranquei o realizador produtor que “nunca conheceu ninguém como eu” da cama. Foi giro, arrastei-o depois para o reggae, puxei-o para dançar só porque ele “não dança”. E dançámos e espetei-lhe uns beijos bem dados, que me souberam muito bem. Seguimos para a casa dele, cor de rosa por fora, branca por dentro e comemos uma feijoada feita pela mãe. Falámos mal do cinema português. Desafiou-me a escrever uma sinopse para um projecto dele. De uma cena de cama, com gente da nossa idade. Adormeci no sofá, fui vestida para a cama dele mas depois lembrei-me que não queria acordar ali. E fomos de braço dado, por aquele bairro cheio de casas coloridas, debaixo de uma chuva miudinha que estreava a manhã, apanhar um táxi. Já em casa, ficámos a falar ao telefone, com uma cervejinha a rematar. Gostei do namorico.

Amanhã vou ao Grémio Literário.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Eu amo, tu amas

O filme foi um poema visual e musical. Não me distraiu o pensamento. Voltei ao palacete. Não consegui arrumar a casa nem ficar sozinha. Liguei à actriz querida que me convidou para ir à galeria de um amigo nosso. Estava ansioso, disperso em mil coisas, como lhe é característico. Mas parou para fazer um sorriso grande.

Fiz um esforço para falar, dar ideias e resisti a ligar-te.

No caminho para casa, agradeci que a amiga querida não fizesse perguntas, apesar de me perceber a tristeza nos olhos. Falou dela, gostei de a ouvir, rimos, como nos é habitual. Somos ambas leão, disse ela que percebe de signos.

Escrevi um pouco, já com um comprimidinho da bela adormecida.

Não te ligo mais. Vais ficar mesmo sem saber de mim. Através deste blog, de amigos, telefonemas e visitas por causa do Big, consegues ficar descansado. Assim consegues amar-me e viver sem me ver.

Vais sentir a minha ausência. Ou me esqueces ou vens atrás. Não vens, eu sei.

Sei também que é a única maneira de te esquecer.

Tentei rever o dia anterior. Faz tudo tanto sentido. Quando te mostras indiferente, estás interessado, quando dizes que vais embora, estás a pedir para ficar. No mesmo dia em que soubeste que tens de mudar de casa, vieste namorar comigo. Estou triste. Acho que também te amo.

domingo, 6 de dezembro de 2009

A mesa

A pessoa bonita que sou ficou à espera que aparecesses com a mesa. E apareceste. Montaste-a, todo prestável como sempre és. Ofereci-te lanche e aceitaste. Estreámos a mesa. Falaste muito de ti, como é costume. Andas a fazer coisas novas, estás a deixar de fumar, andas a namorar contigo. Pelo menos, vendeste-me essa ideia. E eu senti-me pequenina ao pé de ti. Falei-te do artigo, das crónicas, que confessaste nunca ler, dos leitores assíduos, dos homens que mato na passagem quando saio à noite. Nada te mereceu grande comentário. Falaste mais de ti e agarraste-te ao Big. Ensinaste-me mais umas coisas, não estavas com pressa de ir embora. Estavas bem sentado a meu lado no sofá. Deixaste à vista este blog mas só percebeste que era o meu tal blog pela minha reacção. Pois...

Decidi ir ao cinema, não podia ficar para aqui, a pensar na morte da bezerra, depois de saíres. Tendo o não como garantido, convidei-te. Aceitaste, escolhemos o filme. Fizeste um programa para jantar e até propuseste ir ver as luzes de Natal na cidade mas estava demasiado trânsito. Jantamos, passeamos, vimos brincos para a tua sobrinha de dez anos e mergulhámos no Tetro. Lindo Francis Ford Coppola, lindo Vincent di Galo. Comovemo-nos, discretamente.

Primeiro não, mas depois convidaste-me para um copo. Decidimos vir ao barzinho daqui. Passámos por casa e decidiste que ias embora, outra vez. Nada disse. Depois do cigarrinho afirmei que já me tinha produzido e portanto tinhas de me levar a beber o tal copo. Anuíste.

Falamos imenso, falaste de ti, da tua ex cota. Continuas a achar que ela foi a melhor coisa que te aconteceu, apesar do mal que te fez. Fodeu-te mesmo a cabeça. Lá para o 3º vodka falámos de nós. Confirmaste que ficas contente quando te ligo, quando ouves a minha voz. Disseste que nunca me ligarás.

Sei que te comoveste, mais do que uma vez, ao longo da conversa. Não me lembro de tudo o que falámos, lembro-me que continuas numa de culpa e impunidade. Lembro-me que te disse para não meteres o filhote ao barulho quando tiveres outra apaixonada na tua vida. (Falámos tanto do filhote, da nossa relação a dois, a três, de familia). Disseste que o meterás ao barulho outra vez, pois não queres abdicar de nada. És tão egoísta.

Viemos para casa, já enamorados. Confessámos que não conseguimos ainda dormir com mais ninguém. De novo no palacete, anunciaste outra vez que ias embora. Quando nos despedimos, começámos. Os nossos beijos são mesmo bons, são mágicos. Já me tinhas dito no bar que nunca amaste ninguém como me amaste a mim. Disseste-o convicto de novo, disseste-o com amor. E, melhor do que o sexo (pois continuas a não dar-me um orgasmo) foi o sofá. A alegria. A maneira como disseste que era bonita. Foi aí percebi que me amas. E adormecemos.

Não senti que tenhamos dormido juntos, tive vontade de me masturbar, mas não o fiz. Dormi mal, acordei muitas vezes e, como sempre que durmo contigo, acordei cedo. Continuaste enrolado no edredão para não me tocares. Para sair desse nim, fui buscar o pequeno-almoço, comprei o Público e calculei que irias pensar que aquilo era tudo para ti. Não, era para mim. Sentámo-nos à mesa, estavas de volta ao teu ego e querias fugir daqui o mais depressa possível. Confessaste isso. Pedi-te o domingo. Disseste que tinhas coisas para fazer, precisavas de pensar e vais ter de começar à procura de casa. Pedi-te para nos despedirmos daquela tua cama onde tantas vezes fizemos amor. Disseste que nos falávamos e saíste a correr. Mexo contigo. Muito. Amas-me.

Não fiquei desesperada, fiquei desiludida mas precisava de saber se, no meu intimo, estava certa. Estou, amas-me como nunca amaste ninguém. E sim, isso assusta-se.

Percebi que não podia ficar aqui sozinha. Liguei à nova amiga, vou ao cinema. Escrevi a um amigo para ir a Barcelona. Não sei se vou arranjar dinheiro mas, se ele me der guarida, arranjo maneira de ir. Preciso de perspectivar, de ver que o mundo é imenso e que não posso passar a vida a ajudar a vida dos outros e a deixar a minha para trás.

Não vais ligar e não vai fazer tanta mossa como poderás pensar. Finalmente disseste que sou especial. Talvez um dia queiras amar-me e eu já não esteja por cá. Sei que contas com isso.

Estou de luto e não vale a pena tentar dormir com estranhos.

Mais não

Acordei mesmo triste. Triste porque queria ter dormido com ele. Era ideal: mais velho, descomprometido, visivelmente encantado comigo, culto, bom conversador e de uma timidez bonita.

Fiquei por aqui, levei ainda com o filme do taxista que veio cá devolver o dinheiro e falei uma hora ao telefone com a irmã (a vida é de facto irónica) que me explicou melhor a confusão que é essa tua cabeça. Uma coisa é bonita de ver: meteste-me na tua vida, nos teus amigos e os mais próximos ficaram a gostar de mim. Até ela.

Mas nem ela me tirou o sentimento de solidão que me assolou. Ontem o palacete foi mesmo isso, uma casa gigante onde me senti pequenina, minúscula, sozinha.

Peguei na merda do carregador que dizes que vens cá buscar e depois nem vens nem me atendes o telefone. E fui. Não estavas, nem a querida amiga produtora, que é tua vizinha, estava. Nem a tua querida amiga gráfica, outra que tem sido uma querida, parece que somos amigas desde há muito, estava. E nem a outra amiga, que mora mesmo a teu lado, estava. É que encontrei uma mesa na rua, mesmo ao pé da tua porta que vai mesmo bem aqui para o palacete. Pedi ao sr da garagem para a guardar. Irei hoje buscá-la.

Deambulei pelo bairro, telefonei-te mais do que uma vez. Ou estavas desligado, ou não atendeste, como gostas de fazer. Como não posso enviar sms, deixei-te mensagens de voz: a 1ª, gravada em casa, pedia-te para me ligares. Queria dizer-te que precisava de te ter por perto. A 2ª, que estava no bairro e tinha o carregador. A 3ª que o deixei no café que frequentas. Depois dessa mensagens, decidi que não falo mais contigo. Não posso, assim nunca mais de esqueço. Se tiver problemas com o Mac ligo para a minha loja ou para os contactos que a produtora tem para resolver essas tecnicidades. Decidi que ia escrever-te um email a pedir o nib, de maneira a que te possa pagar a merda do carregador sem te ver. Não te posso ver mais. Fazes-me mal, com o teu ar satisfeito, a exorcizar a culpa, cada vez que me ajudas. Sabe-te bem, não sabe?

Tomei a decisão e apanhei um táxi, enfiei-me debaixo do edredon. Estava quase a dormir quando ligaste. E eu, depois destas decisões todas, atendi. “Pediste para te ligar...?” perguntas muito descontraído. Liguei, mais do que uma vez deixei-te mensagens. “Ah, então vou ouvi-las”. Foi só para te dizer que deixei o carregador no café. Tchau. Desliguei e enfiei-me debaixo do edredão. E acordei hoje com o mesmo desalento.

Liguei à tua amiga que ficou de me ajudar com a mesa, liguei à minha que não atendeu e, adivinha lá a quem liguei a seguir. Pois, e não atendeste. Era mais prático seres tu a trazer a mesa, está ao lado de tua casa e eu não tenho de sair daqui... Liguei depois ao meu querido vizinho gay que disse que sim, que ia lá comigo. Depois, depois ligaste de volta. E eu... atendi. Pedi-te ajuda, despachaste-me, mas que sim senhora me trazias a mesa, mas que voltarias a ligar. Falaste com um ar indiferente, ficaste zangado, provavelmente, com o telefonema de ontem. Expliquei que tinha de saber se vinhas ou não pois já pedira a outra pessoa. “sim, sim, mas agora tenho um telefonema por fazer, já te ligo”.

Sou mesmo masoquista. Estou por aqui, sem vontade alguma de sair do edredon. Mas terei que sair, arrumar a casa, pôr-me bonitinha. Pensei em te dizer isto e aquilo mas nada te vou dizer. Mas não te quero ver mais.

Para o caso de leres este blog, pois desconfio que o descobriste nas vezes que vieste cá ver o Big, espero que tenhas apreciado a escrita, que, mais uma vez te tenha elevado o ego, pois sempre te fiz isso de uma maneira que ninguém fez. Isso vai chegar ao fim, tal como a minha penitência contigo. Sou uma pessoa bonita, demasiado bonita para ti.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Sexo proibido


Esta merda de natureza aos altos e baixos é tramada. Por natureza não quero ou consigo andar na linha, na normalidade, regularidade, continuidade. Tenho uma puta de alma de artista e nem sequer tenho grande arte.

Estou ansiosa, o editor não me disse nada de nada. Ontem estive à cumbersa com o meu querido Sr. Miguel. Não sei como é que a conversa foi parar à família e acabei por lhe contar aquela tragédia. Ficou tão revoltado...

Eu fiquei frágil, frágil e acabei por convidar online o realizador, fã das minhas crónicas, para sair. Tipo, sim ou sopas. E lá fomos. É como pensava, educado, mais velho e tímido, muito tímido, fiquei descansada. A meio da noite decidi. Pois és mesmo tu, é mesmo hoje. Mas não foi. Quando era para ser, recolhi-me e, assim que ele saiu muito educadamente, fiquei num pranto.

Claro que esta angústia toda, estes sentimentos ao rubro, devem-me em grande parte à copofonia dos últimos dias. Não posso esticar-me nessa área e tenho-o feito. Depois fico um farrapo. Vamos fechar essa porta. Mas ela não fecha este amor, ou necessidade de amor. Nem sei se é de ti que gosto ou do amor que vivi contigo. Da minha parte foi amor, da tua, deve ter sido mais uma peça de lego que é essa tua cabeça de puto a quem a cota da tua ex-mulher fodeu por completo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Um pequeno grande dia

Acordei com a senhora do seguro do carro a dizer que está em cima da sacana da outra seguradora que não se decide a pagar-me o arranjo. Foi ainda na cama que tomei café e fumei uns cigarrinhos ao telefone com a secretária simpática que tem os contactos de toda a gente. A seguir vi no email o resto das respostas do anão que até estavam engraçadas. Deu para ver que se esforçou. Ai que menino bonito. Falei com a mamã, com a amiga actriz que é uma querida, comi um canja, fui comprar chá de Lúcia-lima e sentei-me serenamente no palacete arrumadinho a escrever.

Já tinha o texto na cabeça. Concentrei-me e eis que o editor me envia um email a perguntar pelo artigo e eu a escrevê-lo tranquilamente, sem stresses exacerbados.

Fiz uma pausa para comprar uns bolinhos (ai aqueles de doce de ovos com amêndoas!), fumei um charrinho e continuei.

Terminei às 19.30 e eis que me liga o professor que ia dar uma aula, mesmo aqui ao lado. Jantámos um crepe de fugida e trocámos uns piropos. Estava com saudades de o ver, confesso.

Fui a casa do vizinho gay que me pôs a ler o texto. Gostou. Mais um cigarrinho e casa comigo.

Estou mais cansada do que pensava e amanhã tenho de ir de comboio fazer um serviço do jornalito.

Depois é limar o artigo e enviar. Ainda não vi as fotos. E só vou ficar contente quando o vir publicado. Ah, e é verdade - mal me lembrei de ti hoje.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Eles


Entropia, eis a palavra certa para a minha vida. As coisas começam a acontecer em catadupa mas, no fim, passou-se muito pouco e eu perdi muito tempo e energia.

Estou na última fase da odisseia do anão. Porque não separei o trabalho do lazer, levei com o filme de um tacanho, armado em estrela de cinema, que me ia deitando por terra a oportunidade da revista. Tenho de saber mais e não deixar que pessoas pequenas me fodam a vida profissional.

Nessa odisseia, a actriz fez tudo o que pode e não pode junto ao anão e, como lhe habitual, fez-me ver como as pessoas são, como funcionam. Sem ela, duvido que tivesse conseguido. O professor desdobrou-se em contactos para uma alternativa, escutou-me, amparou-me, como tem feito sempre. Ensinou-me que não se desiste, vai-se de outra maneira. A produtora que , não obstante os seus problemas do coração, escutou-me, ligou-me e escutou-me e ligou-me. O Reis escutou-me e escutou-me, deu-me objectividade, uns mimos e um orgasmo. Vai fazer a revisão, o que me dá uma enorme segurança. O vizinho gay tem sido a minha companhia nas saídas culturais, o meu motorista, o meu “maior fã”, como diz, e mais um a fazer-me ver como devemos funcionar com as pessoas. Hoje deu-me uma árvore de natal feita por ele. Linda, colorida. E ainda o Sr. Miguel. O querido Sr. Miguel, a sua sabedoria e alegria. E o ex que foi o salvador do Big e ainda me quis oferecer o carregador, reabrindo uma ferida que começava a cicatrizar. E o querido melhor amigo dele, fotógrafo, que me deu toda a força, fez tudo para que o nosso trabalho resulte e ainda ficou embaraçado quando lhe disse que me devia ter apaixonado por ele em vez do ex. E devia.

Hoje tenho a cabeça em água porque não resisti ontem em aliviar a pressão nos copos . Correu bem, encontrei o meu primo preferido e pessoas que me apreciam. Podia não ter corrido.

Mas amanhã, vou fazer aquilo para que estas pessoas todos se esforçaram: um grande artigo sobre um gajo tacanho. Sei que vou conseguir, tenho tudo o que preciso: amigos a torcer por mim.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sr.

Escrevi para aqui um texto sobre a nossa interminável não história. Depois fui beber um café com o Sr. Miguel, o meu vizinho preferido. E bebemos uns copos, aliviamos a pressão das nossas vidinhas. Depois ele disse-me que sou "uma mulher dificil, que nem todos os homens me conseguem apreender. Que eu sou só para alguns. Para ser franco, regra geral, os homens têm medo de si. Regra geral".
Depois o artista anão não me atendeu o telefone. Depois despedi-me do Sr. Miguel. E pronto, estou tranquila, sei quem sou, estou com os copitos e tenho de acordar às dez. Mas, como diz sabiamente o Sr. Miguel, "às vezes tem de ser".
Amanhã, quando ligar ao anão, tenho de me lembrar do que o Sr. Miguel disse. Afinal, tem 69 anos, deve saber do que fala.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

BIg

Na tarde seguinte, peguei no telefone e liguei ao editor. Que nem sequer tinha lido as minhas propostas. Respondeu-me pouco depois por email. Até nem acha que escreva assim tão bem, mas podia estar enganado. E ia apostar numa das três ideias que lhe dei. Uma semana para o fazer. E eu a fechar daqui a uns dias.

Claro que sim. Depois o teu melhor amigo aceitou fotografar. Mostrou até que ficou contente, isso foi bom. O entrevistado está muito ocupado e temo que se desmarque em cima da hora. Tenho um dia real para escrever o artigo. Mas sim. Vou conseguir. É sob pressão que me sai a minha parca arte.

Como disse a Sandra, não me posso distrair com nada. E não vou. Há que despachar o jornal. Além do tempo de que preciso para descansar. Bora lá.

Depois, o carregador do Big pifou. Assim, como quem dá aquela palha. Fiquei controladamente em pânico. Depois liguei-te.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

menos nós

Já aconteceram uma série de coisas entre nós. Já tive de te explicar, com pinta, a diferença que existe entre pedir um favor a uma amiga e a uma namorada, que já não sou.

Atendes quase sempre o telefone e quase sempre respondes de volta quando não atendeste. Falas sempre com aquela voz simpática que usas na tua profissão. Devolveste uma chamada feita às oito da manhã onde te deixei uma mensagem desnecessária. Telefonei-te depois. Chegou a uma altura em quem não quiseste falar mais, mas ligavas à noite. Disse-te que não valia a pena e que também só te tinha ligado porque estava copofónica.

O Big está com problemas, surrealmente lento. Telefonei-te e disponibilizaste-te a vir cá amanhã à tarde.

Tenho sempre a sensação ao telefone de que ficas contente por me ouvires. Tenho a convicção de que mesmo que me queiras, não sairás da postura de que não me queres.

Afastei-me de ti este fim de semana. Pensei noutros homens. Sei que não quero relações, por enquanto.

Sei que ainda gosto de ti, que queria uma noite de amor contigo, mas não sei se te quero. Acho que o que quero é mostrar-te que sou especial, que não foi como as outras. Não sei se arranjarei maneira de o fazer, dizer ou demonstrar-te isso. Não sei. Sei que há uns tempos me fazias mal mas queria-te à mesma. Não sei se te quero.


Com os meus botões



À conversa com eles, disseram me que ando com os horários trocados e assim não aproveito o dia, a luz. Com isso vem a falta de energia, um desalento despropositado, arranques de projectos adiados.

Foi uma semana dura com muitos problemas e facturas para liquidar. E um deslize no trabalho do qual me safei com elegância mas não dispensa uns trabalhinhos extra e a más horas e a cabra à espera de um erro meu.

Mas também tem havido perspectivas novas. Ténues, não obstante. Ver para querer.

Este fim de semana foi muito giro, passado com mulheres giras e homens aos piropos mas foi também uma maratona. Acabei extenuada. Tenho de meter uma abaixo. Ontem senti que a cabeça me fugia.

Esta semana tem de ser mesmo de trabalho e muitos chás no palacete. Tenho de ser responsável pelo meu equilíbrio. E começar a ser esperta.


The special ones

A minha mãe disse-me há tempos que teve um pressentimento de que o fim de nós viria a ser uma coisa boa para mim. É capaz de ter razão.

E de facto, o melhor de voltar a ser uma single girl foi passar a ter os amigos bem perto. Com interesse em saber como vão as coisas. A querer saber se estou bem. A escutarem-me até à exaustão sem fazer frete. A convidarem-me para sair e até a convidarem-se para jantar no palacete. E ainda a estimada ajuda do professor. A disponibilidade. As saídas malandras. As prendinhas do estrangeiro. A boa conversa.

Depois os novos e os ocasionais amigos. Eles e elas. Então com elas tenho-me rido à brava, feito programas e conversado muito. Sobre gajos e outras coisas.

Ela. Que abriu o coração para me contar como foi. A interpretação e a atitude. Os mails onde senti que aquelas palavras eram minhas. A amargura partilhada, já longe para ela, mais perto para mim. Surpreendeu-me pela positiva e fez-me muito bem.

Um brinde, aos amigos de sempre e aos recentes, aos ocasionais e aos intemporais!

Sexo?

Ora a indumentária, o batôn e corte de cabelo acertado têm criado as suas oportunidades. Há um mês desejei alguém que não o ex. Mas ele fugiu por causa de um sms da namorada.

Depois foi o inglês, o tal que me foi explicando ao longo de uma noite, o galanço serrado à minha volta (de amigos inclusive). Soube bem saber. Depois... adormeci sem saber se ele veio ter ao palacete, como combinado. Pura e simplesmente caí para o lado a dormir.

E ainda o puto que afinal não era tão puto que, quando eu até já me tinha decidido a dar-lhe beijinhos, foi à casa de banho e depois foi-se embora.

Ainda bem. Quando me voltar a dar alguém, me despir e misturar o meu corpo com o dele, quero que seja sem grande copofonia. Ou se calhar não. Logo se vê. É isso mesmo o mais importante: já vejo a hipótese de tal acontecer. Entretanto, tenho tido uns miminhos. Já há muito tempo que um homem não me dava um orgasmo.

Pecado

Cada vez que saio, arranjo-me. E cada vez mais dress to kill. Apetece-me sentir sexy. Faço-o com graça e aprecio os efeitos que causa. Causa muitos, alguns até de mulheres. Gastei dinheiro que me vai fazer falta no fiz do mês mas foram mesmo só uns trapinhos para subir a auto-estima e descer o frio. Sei que ando vaidosa em excesso, mas penso que isso entrará nos eixos naturalmente.
Sinto-me gira, roliça mas jeitosa, e sabe muito bem ser apreciada.

Contabilidade

Ora bem, desde que sou uma single girl, em dois meses fui ver dois documentários, duas instalações, um concerto, duas peças de teatro, dois filmes (ambos lindos) algumas noites de disco, jantares cá em casa e duas festas.

Nada mau para quem, não obstante a agenda, continua ter uns dias maus, daqueles em que o mundo me cai em cima.

Metade das coisas que vi não me disseram nada. Até me despertaram um sentido critico acutilante, eram muito lineares, que é uma coisa diferente de simples. Seja como for, eles lá fizeram os projectos, eu fiquei na plateia a ver mas cada vez mais com vontade de fazer os meus.

O melhor de tudo isto é que antes ia ver coisas por obrigação, para andar para a frente, porque tinha de ser.

Agora, vou com vontade.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Up grade


Menos doentinha fui levada ao ikeia para comprar duas mezinhas em saldo que a mãe, em conversa ao telefone, se ofereceu para patrocinar.

Fiz várias instalações de mesas com combinações de cores diferentes, sempre com a paciência e opinião do amigo gay. Perante tanta indecisão, ele foi para o café, eu decidi-me, apanhei duas almofadas, dois candeeiros e um tapete na demanda para chegar à caixa registadora.

O querido amigo gay não pôde ficar para jantar, deixou-me em casa com a mobília nova, não sei antes me demonstrar que não era preciso uma chave de parafusos para montar as mesas. Não havia parafusos.

Atarraxei estoicamente as pernas, mudei lâmpadas, experimentei, troquei, empurrei, e eis que tenho uma nova casa. Upgrade no Palacete!

Fiquei por aqui a gozar a nova casa. Está mais ampla, com lugar para mais gente, mais ... lima. Soube bem, fez bem.

Vi que não respondeste ao email idiota do “bora ai ter uma conversa simples, afinal somos amigos” que te enviei, fruto de altas temperaturas às 4 da manhã. O que uma gripe faz numa pessoa!

Acendi um cigarrinho para rir e fiquei refastelada a apreciar os novos cantos de luz, as almofadas que já enchem mais a cama, a mesa branca e a amarela. Juntas parecem uma. Excelente combinação.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

Era esta babe

Alguém me emprestou dois ou três álbuns de Bauhaus. Curioso não conseguir lembrar-me de quem. Era obrigatório gostar de Bauhaus, pelo menos para uma vanguardista em formação que nem eu.

Não os entendia muito bem. Era sombrio, era poderoso, mas não sabia muito bem de que falavam.

Foi a ouvir esta música que me identifiquei com o desalento, com a desilusão, mas também com o grito de genuídade que só a dor nos pode dar. Para mim Bauhaus é esta música que ouvi encostada à janela da sala, em repeat, numa tarde qualquer da adolescência.

Era esta babe, a música de que te falava. Afinal chama-se exactamente como te disse. Nunca te a consegui cantarolar. Fico inibida de desafinar, logo eu solista principal num coro de igreja. Não sei o que aconteceu mas, desde há muitos anos, que só consigo soltar este vozeirão que tenho, sem desafinar, se estiver embriagada. Só assim consigo ir buscar a voz ao diafragma com firmeza e elevá-la até à nota que quiser.

Tu nunca fizeste a menor ideia do que estava a falar. Tens todos os álbuns deles, mas esta música, se calhar muito simples para a complexidade de Bauhaus, era-te completamente desconhecida. Quando cantarolava a letra, fazias aquela expressão “lá está ela a falar de coisa nenhuma”.

Descobri-a hoje e tem estado a tocar em repeat. Para mim não é depressiva, é aconchegante. É como nos enrolarmos no próprio corpo e sentir que nos damos um abraço de conforto.

Estou adoentada, durmo mal e quase tudo corre mal. Já perdi a conta às pessoas que me despacharam ao telefone. Está a decorrer um jantar de uma amiga, recente é certo, que no outro dia se passou cá em casa. Acho que cortou relações comigo. Fui convidada por chat e depois desconvidada por silêncios. Gosto dela, tem a mesma natureza que eu, mas sabe sobreviver melhor. Gosto dela. Alem disso, à volta dela gravitam os “amigos” que tenho agora.

Sai de casa do Reis mais triste do que entrei. Não pelas razões que ele pensa mas antes pela indiferença com que recusou um convite improvisado para jantar ou uma ida à farmácia para me ajudar. Sim, sei que não fez por mal, mas na panóplia de indiferença em que ando, um gesto dele teria feito toda a diferença.

Fui ao super-mercado gastar dinheiro que não tenho em pequenos mimos. Fiz um esforço para lavar a loiça e fiz o jantar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Mimo

Constipação

Entre ontem e hoje, passei cerca de oito horas na loja do cidadão. Hoje, depois de escrever e rescrever a exposição a dizer que sou pobrezinha e preciso mesmo da ajuda do Estado, cometi uma ilegalidade e fui de carro para lá. Sentei-me ali naquelas salas onde só se espera e se ouve uma buzina irritante de trinta em trinta segundos. Não aguentei e fugi para o nosso quotidiano de love. Lembrei-me da sensação de estar nalgum sitio desagradável e ter a perspectiva de que a seguir ia estar contigo e tudo ia ficar bem. Agora, a escrever sobre isso, lembrei-me do jantar que me preparaste depois de um fecho horrível. Foi tão bom. Depois dessa noite nunca mais stressei tanto com os fechos, nunca mais levei aquilo tão a sério. A sério só te levei a ti, a música permanente, os ataques de riso, as mãos dadas, o amor. Aquele amor tão grande que me encheu de serenidade. Nunca um amor me deu esse equilíbrio, essa paz.

Voltei às salas onde só se espera. Senti-me tão sozinha. Retive as lágrimas, fiz uns telefonemas que ainda me fizeram sentir mais sozinha e fugi de encontro a um café pingado e um pastel de nata. Falei com a cabo verdiana simpática e fiquei a saber de um sitio novo onde se respira Cabo Verde e se come cachupa.

Voltei à loja, fui aos correios enviar um fax que me custou 13 €. Regressei a casa, comprei frango para fazer uma canja. Apesar da constipação, sei que sinto mais saudades de ser feliz do que de ti.

Vejo o teu sorriso no facebook e sinto que já não sei quem é aquele rapaz.

Esta rapariga funga pelo nariz, implora ao Estado por ajuda, conduz ilegalmente e não tem ninguém para ligar às 3 e meia da manhã.

Estou doente, é tudo.

Um presente



10º ano. Saias rosa e blusas brancas, sapatos a condizer. A vizinha original. Que fumava e andava com o grupo de amigos do irmão mais velho que tomava a bica no café.

Depois, debaixo das arcadas, no túnel do prédio às riscas, fumávamos cigarros e gastávamos conversa.

O Anica. O Anica era o gajo que fica calado e depois sabe tudo sobre tudo. Um líder discreto. O Anica sabia muita coisa, era culto.

Tratava-me sempre por princesa, queria saber da minha vida, dos meus pensamentos.Às vezes, dava-me a exclusividade da sua atenção. Os olhos dele brilhavam, quando falava comigo, não com aquele brilho de enamorado, mais de encantado. O Anica fazia-me sentir uma princesa.

Crescemos e o Anica teve uma série de confusões com a namorada primeiro, depois com os amigos. Perdi-o de vista.

Nesse tempo, deixei de ser beta e passei a ser vanguarda. Adormecia à noite com a poesia dos Smiths.

Obrigada pela viagem.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Grande

Berrei com a filha da puta da advogada, tive 5 horas na loja do cidadão, ainda não resolvi o que queria mas acabei o dia com a Sandrinha a ver O'queStrada! Nem de propósito.

Mesmo à frente do meu nariz!

less gray than the day

Foi cinzento o dia. Falei com muita gente sobre problemas e problemas, tratei da renda, da conta do café, fiz o jantar, pois que não ando lá a comer muito bem.

Liguei-te, primeiro para o telefone fixo, depois para o móvel. “Olá é a Sónia, calculo que não tenhas ainda perguntado ao teu pai sobre aquela questão. Não vale a pena, eu já encontrei uma estratégia. Obrigada. Beijinhos”. Pronto, está encerrado. Não tenho nem tens desculpas para ligar.

Lá tive que ir à tomada de posse da presidente da câmara, constipada e bem agasalhada. Vi e fotografei os presidentes, liguei ao Reis e fugi para aquela cozinha no sexto andar.

(Quanto mais conheço políticos menos gosto deles, dos protocolos, das reuniões, dos fatos parolos, da cambada de assessores que ganham quatro vezes mais do que eu).

Falei com ele, perspectivei, relativizei, até consegui ser optimista. Saiu de mim o cinzento escuro. Falámos de outras coisas, da nova direcção do Público, do misteriosamente “famoso Reis”. Rimos e fumámos mais uma. Ainda tive a sorte de uma massagem. Tão bom. Gosto tanto de ti Reis.

Que nem uma menina bem comportada entreguei a carta ao sr. policia. Que, não dizendo, disse que sabia que seria tentada a pegar no carro. Não condenou nem concordou. Entendeu.

Sai sem a carta e conduzi para casa. Fiz um chá de alecrim, limão e gengibre e pus-me a ouvir Smiths. Tomei um Benuron. Amanhã cedo tenho de ir à loja do cidadão.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"Não vinha nenhum mal a este mundo"


Ainda não consegui resolver nada. Mesmo assim acordei cedo para o ilustrador voluntário vir cá ajudar-me a fazer o blog das crónicas. Tão querido.

Tomei café com o vizinho gay e percebi o quanto estou irritada. Cheguei a casa, tive um ataque de choro e adormeci. Acordei com sintomas de gripe. As gripes em mim são de facto psicossomáticas.

Decidi fazer a minha última viagem legal até casa do Reis. Tem me aturado como ninguém, especialmente para alguém que tem da vida uma perspectiva muito crua. Escuta-me sempre, dá-me sempre apoio. Gostou do blog das crónicas que, apesar dos incentivos, não tenho tido a menor vontade de escrever.

O Sr. Policia disse-me que se não tinha o número do processo não podia receber a carta mas também que “não vinha nenhum mal a este mundo” se a entregasse amanhã, que eu fosse da parte no horário da noite que ele estaria lá.

Também não me apetece escrever sobre sem nós. Fiquei de facto amargurada contigo, com a indiferença que mostraste nos últimos telefonemas. Andar a dormir contigo aos sopapos, só me fez amargurar mais o que sinto ou senti por ti.

Ai tanto que me amavas, ai tanto que me desprezas.

Estou engripada de facto e só quero dormir. Amanhã tenho de me mexer.

Passei pelo facebook. Passas dias sem postares, normalmente só adicionas amigos. Hoje, no entanto, anunciaste que vais a um concerto. Por baixo desse post uma Lola clicou um like. Lola deve ser a tua amiga espanhola com quem te fartaste de foder em Cádis e vieste de lá um homem novo. Pouco depois conheceste-me.

Fiquei cheia de ciúmes e apercebi-me o quanto era ridículo senti-los. Já não somos nada um ou outro e, como fizeste questão de mostrar, nem amigos. Querias ser meu amigo, antes de voltares a dormir comigo e me tratares como a coisinha mais desinteressante que conheceste.

Pois a tua vida continua, nada melhor de uma velha amiga para te por a energia em dia. Se calhar não é nada disto e estou a fazer um filme. Não interessa. O que interessa é que me confrontei hoje que já não andas a lamber as feridas (alguma vez o terás feito?). A ser verdade, espero que fodas muito, sem preservativo, como gostas, e apanhes uma infecção qualquer. Sei que é brejeiro este sentimento mas só agora é que me lembrei de novo o quanto me trataste mal e magoaste.

“Nunca ninguém me tratou tão bem como tu”, disseste-me mais do que uma vez. Big mistake, o que tu gostas mesmo é que tratem mal, deve ser um complexo que te vem do teu pai para quem, aos teus olhos, nunca conseguiste ser um grande homem. Aos meus olhos também não.

domingo, 1 de novembro de 2009

A voz do lobo


Obrigada António Sérgio. Terei saudades todas as noites.

sábado, 31 de outubro de 2009

Até já

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fora de ti

Sem muita literatura, até que já gastei palavras, emoções e auto-estima a mais. É simples, eu já saí há muito da tua cabeça, tu não estás nem aí e eu já sabia isso desde o dia dos “créditos finais”. Eu para aqui a perseguir o que nunca existiu, tu a pensar “no teu vazio”. De mim, sobraram-te saudades, é certo, pois sou boa a fazer sentir os homens que estão ao pé de mim “como os maiores”. Transformo-os nos maiores, transformo-me em muito pouco.

Não posso dizer que não fui avisada, não posso dizer que não tive noção. Escolhi amar-te e preferi sonhar com o meu babe a pensar nos problemas da vida que resolveram cair-me todos em cima, todos ao mesmo tempo. Sou responsável por eles? Também. Sou também uma sobrevivente das circunstâncias de todos eles.

Já desejei a morte, já a fintei duas vezes, o que tenho pela frente para resolver não chega aos calcanhares do que já ultrapassei. Bora lá lidar com o tribunal, e as finanças, e as dívidas e a falta de dinheiro e mais qualquer coisa que me esteja a esquecer agora. É apenas a vidinha.

Quanto a ti, depois de bater o recorde de telefonemas e de te ligar três vezes no mesmo dia, lembrei-me de repente, de que não és alto, nem forte, nem tens barba rija, nem nunca conseguiste sozinho dar-me um orgasmo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Shiuuu

Entre um peixe espada preto grelhado, um arroz de cenoura e uma couve flor cozida, não conseguimos comunicar. Não sabíamos como estar. Enquanto o refogado do arroz aloirava, escorreguei para ti, no chão da cozinha. Falámos pouquinho. Abraçámo-nos.

Jantamos tranquilos e ficámos pela tv no sofá. “Estás a pensar em ir ao concerto?”, perguntei. Ainda não decidi. Respostas "nim", com uma cama ali à mão, verde, feita de lavado. Mapling e cama. E bolachinhas. O programa ideal para ambos já fartos de cultura e postura.

Respondeste-me com condescendência mais uma vez, a propósito de coisa nenhuma. Tive de responder, não reagir seria anular-me.

Lá tivemos mais uma não conversa, com recordes de silêncio e tudo. Não tugiste nem mugiste. Viemos para minha casa em silêncio. Mandaste-me um beijo com a mão. Sentei-me no jardim. Estava uma noite de Outono bonita. Sem chuva.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Instalação

Dormimos muito, abraçados. Acordei-te e saltaste da cama, falaste na enorme fome que tinhas e que querias tomar o pequeno almoço. Continuámos os dois, sem nós, na esplanada com um espelho de água que também conheço, da adolescência. Bonita e tranquila. Implicaste com as interrupções que te fiz à leitura, apesar de minutos antes dizeres que não te importavas.

Falaste da tua agenda, não sabias quando mas tinhas uma reunião de família neste fim de semana , falaste de tudo o que querias ir ver, sem que isso implicasse a minha companhia.

Mencionaste o concerto de hoje para o qual já tínhamos bilhetes. “Ah, afinal incluíste-me na tua preenchida agenda”, brinquei. Disseste-te que não, mas o convite estava implicado.

Perguntaste se queria ir a tua casa ver-te tratar da vida e estender a roupa. Declinei. Deixaste-me em casa, com um até já.

Arrumei a casa toda, telefonei a uma amiga. Sentia-me pequenina, ridicularizada, mas desejada ao mesmo tempo. Tanto acreditava que querias estar comigo como não.

Liguei-te, falaste da instalação que não podias deixar de ir ver, que à praia não querias ir e, que se eu estava com dores de estômago, tu não deixarias de fazer o teu programa.

Lá me pus bonitinha e fomos. Demoraste imenso tempo. Chegados lá, sentámo-nos num banco comprido. Eu de pernas juntas, tu de pernas abertas atrás de mim, abraçados. Os filmes eram uma seca, o momento foi delicioso.

Cibelle

Deste-me a mão, assim que entrámos e guiaste-me até à frente do palco. Ficaste atrás de mim, tocaste-me pelo corpo todo. Gostaste das meias, mas não me elogiaste a toillete. Botas pretas, meias com riscas entrelaçadas, mini saia vermelha, camisa preta justa, batom a condizer. Sei que apreciaste.

Demorou a começar o concerto, nós aproveitámos para uma bebida, uns beijos ternos e centrarmo-nos em nós, como não existisse mais ninguém à volta.

A Cibelle é gira, animada, dançámos juntos, sem sair do lugar e foi brutalmente sexy. Perfeito.

Voltamos a casa e a puta da cólica obrigou-me dobrar em cima da cama. Pouco depois enroscaste-me em mim, deixando-te dormir. Deitaste-te debaixo dos lençóis enroscado em ti próprio.

Mais uma vez, e foram várias nesta noite, tomei uma iniciativa. Fizemos amor cansados. Adormeceste de imediato. Sem nós.

os dois

Na minha cabeça seria na quinta à noite. Fiquei triste que não nos tivéssemos encontrado antes para um filme, enroscados no sofá, que é o que me anda a fazer falta. Ter-te ao final do dia, enroscado comigo no sofá a descansar a cabeça e a sentir-te todo junto a mim.

Mas foi só na sexta, por mensagem, que me convidaste para um concerto. Eram dez e meia da manhã. Percebi que estavas contente com o programa, em me veres.

Olhei para o dia que tinha pela frente e fui em frente. Ainda comprei langerie e uns trapos baratinhos. Percebi que o trabalho de escritório podia ser adiado. Arrumei a casa, experimentei toilettes e eis que uma valente cólica me dobrou, levou a energia e me espetou no sofá durante duas horas.

Telefonaste e apareceste. À entrada tentaste-me tocar, mas eu, muito empenhada em mandar um sms, desviei-me. A partir dai, passámos a estar ali os dois a falar de coisas interessantes e afins. Mas não havia nós.

Saímos para o concerto.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

"A última emoção que ela sentiu antes de morrer foi a tua boca”.

Bonito. Simples. Não é um filme exuberante "à Almodóvar”. Dizem que é triste. Não achei.

É sobre aquilo que o amor nos dá que a morte não consegue tirar. Conseguir ser feliz depois da trágica perda, da incomensurável dor.

Abrazos Rotos são as mãos dele encima do ecrã da televisão, como que a tocar o beijo digitalizado. O último. “Amplia” diz ele.

Abrazos Rotos são fotos e fotos rasgadas pelo ecrãn inteiro.

Abrazos rotos” recordou-me o prazer de descobrir nas fotografias que tirei algo que não vi na altura.

Saí do cinema com a barriga cheia, acompanhada de uma amiga que ficou sem saber se gostou ou não. Concordámos que devia ser um bocadinho mais rápido, menos uma cena aqui e ali.

De tarde vesti o personagem do “ai, ai, ai, que vou ter que me zangar” para pôr a seguradora a trabalhar. Voltei ao escritório ao som de Liliy Allen. Já conhecia mas só hoje a escutei.

Correram bem as coisas no escritório. Tenho de continuar a mexer-me.

Este foi um bom dia e a última emoção que senti antes de o começar foi a tua boca.

Virei-te costas e deste-me um apalpão por baixo da mini saia, que nem um atrevido.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A tua preferida

Noite fresca

Começou bem o dia ontem, lá cumpri os objectivos mínimos dos mínimos. Falei com o meu querido Miguel, o meu enfermeiro preferido. Desabafou, falou de um amor que não quer partilhar a vida dele, com três filhos, com interesses, com ele, um dos homens mais bonitos que conheço.
“ No fundo, isto resume-se a uma questão: se precisar, a quem é que eu ligo às três e meia da manhã ?”.
Falou mais e mais, até disse asneiras. Estamos a tornarmo-nos amigos. “No fundo, o que interessa são as relações, é a partilha”.

Marquei o press para amanhã de manhã. Deambulei pela angústia de não saber como começar a ir atrás dos meus sonhos. Mas estive bem disposta, positiva e essas coisas todas.
Obriguei-me a fazer uma quiche, lembrei-me daquela outra, quando ficaste cá com o filhote. Dei por mim, na cama, entre tu e ele, a pensar que, de facto, a vida dá-nos mais do que pedimos. Também nos tira mais do que queremos.

A noite, já menos quente, trouxe-me a solidão. Fui até ao café do bairro. Entre conversas sobre a eleição do presidente da república e a manutenção do jardim, fiquei a sós com o meu querido sr. Miguel. Vamos à praia amanhã, cedinho.
Adormeço com a minha música preferida do álbum do Rodrigo Leão.

Adormecer

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Melhor

Fiz o telefonema, enviei o email. Faço figas. Visto-me de castanho e perfumo-me.
Tenho dois projectos para a semana, um encontro de trabalho e um press para escrever. Vou fechar o jornal, quero ir ao serão do jantar.
Sinto-me bonita. Está um dia lindo. Oiço música, muita música. Danço. Ponho batôn antes de sair de casa.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Cama

Uma por dia

O dia quase já nasce mas cumpri a maratona sem stress. Ainda não sei que música me vai embalar mas sei que vou dormir descansada. Talvez opte outra vez por Múm. Lembra-me a luz da varanda da Graça, com a palmeira em frente e o Tejo de esguelha.

O meu telemóvel ressuscitou para paralisar de novo.

O sr Miguel disse-me tudo aquilo que eu já sei. Elegante como sempre, acompanhou-me à porta de casa e prometeu que me vai dar anonas. Nunca provei.

O A olho teve reacções de mimo que incluiu a tua irmã. Sem pensar muito, escrevi-te uma mensagem a pedir para postares as outras. (Queria que ela lesse o “esparguete fininho). Não resisto a estar quieta.

Não obstante, arrumei mais uma gaveta hoje e posso dormir até tarde amanhã. Com sorte, ainda apanho um chill out do jantar de amigos. Vamos lá a ver a que horas me safo do fecho.

Yap, vou adormecer ao som de Múm.

A olho - "Às camadas"

Ficaram no fundo do congelador para uma ocasião especial. Chegavam para três pessoas, fossem as ditas grelhadas ou estufadas, ou algo do género. Deixei-as em paz até àquele domingo.

Afinal tinha-se despachado mais cedo, conseguia chegar a Lisboa ainda esta noite. Soube bem sabê-lo a caminho, estava irritada, não me apetecia nada, nem coisa nenhuma. Apeteceu-me estar com ele.

Desliguei o telefone e fui direitinha ao super-mercado. Para o jantar só me faltava um pimento e cebolas mas pus no cesto leite, queijo e fiambre, pão, umas bolachinhas e umas laranjas. Queria que houvesse na cozinha aquele essencial para comer sem cozinhar ou esperar que a anfitriã acorde. Queria que se sentisse à vontade.

Apanhou-me de táxi, ajudou-me com os sacos e largou os dele. Estávamos de novo frente a frente. Tirando uns cabelos brancos, que não condizem com um ar de criança que se sempre lhe vi, estava igual, mais bonito até. Com ar de homem. Falámos com calma, sem pressas, sem discursos de saudades. Não nos víamos há cinco anos, (ou será seis?) mas falamos, ao longo dos anos, por telefone e pela net. Foi assim que acompanhei os seus amores e desamores, o trabalho, os problemas, a vida. E ele a minha.

Não havia pressa mas havia que começar a fazer o jantar. Pu-lo a descascar batatas e a cortá-las em rodelas grossas. Depois tomei conta do balcão e dei-lhe uma garrafa de vinho branco para abrir. Não foi fácil. Chegámos a pensar até em enfiar a rolha para dentro mas ele foi persistente e lá se ouviu o clássico ploc!

Enquanto escutei a tranquilidade com que falava, fui tirando as entranhas às ditas. Depois dediquei-me a cortar cebolas às rodelas enquanto falou das lágrimas que verteu por causa da outra. Daquela que era a tal, à que virou as costas, apesar das opiniões contrárias que lhe dei naquela tarde. Sei que me deu razão, antes mesmo de tomar a decisão, mas não conseguiu fazer de maneira diferente. Cortei o pimento às fatias. Só nós é que podemos viver a nossa vida, não é?

Enquanto falava do coração partido, esmaguei alhos. Falava sem dramatismo, sem culpa, apenas com objectividade, tal como fazem as pessoas crescidas. É importante conseguir ler a própria vida.

Pus o tacho ao lume com o azeite a aquecer. Olhei-o de alto a baixo, estava atraente, com um corpo delineado. Lembrei os dias em que desejei aquele corpo e o levei por caminhos desconhecidos. Houve uma altura em que aquele corpo não sabia bem como moldar-se a outro, por mais que quisesse. Dei-lhe o meu devagar, por toques, por movimentos ligeiros, ternos. Foi ternura, e não paixão, que levou o meu corpo de encontro ao dele, é a ternura que nos mantém juntos, apesar de separados por um avião.

Mudámos para o tema da fé. Enquanto ele falava sobre o caminho que segue, pus uma camada de cebolas e alhos no tacho, por cima uma camada de rodelas das batatas que cortou para nós, depois outra camada de lulas. Sim, decidira fazer-lhe uma caldeirada de lulas. É substancial e faz-se a si própria, permitindo espaço para a conversa, que é o que mais interessa. Caldeirada é às camadas e não mexer mais. Em lume brando.

Enquanto pus ao calhas cubos de tomate lá para dentro, falei-lhe da minha antiga fé e temperei tudo com o respeito e contenção que tenho para com todas as religiões. Sal grosso, pimenta, uma folha de louro, pimentão-doce e uma pitada de orégãos.

Voltei a repetir a ordem das camadas enquanto lhe expliquei que para mim a ordem do caos é só uma: o amor. O amor move montanhas, faz milagres, o amor é a única coisa que interessa. Como quem não quer a coisa, pus um raminho de coentros na panela e rectifiquei os temperos despreocupadamente.

Falámos do trabalho, da nossa parca arte. Das histórias que passam pela nossa voz, pela nossa escrita e pela criatividade de que não abdicamos. Perdida na conversa esqueci-me de pôr a mesa. Desliguei o lume e dei um tempinho para apurar.

Enquanto falava do equilíbrio que tem hoje a comer, servi a caldeirada e fui buscar o pão que me esquecera na bancada. Quando pediu para repetir, aí, fiquei orgulhosa. Acendi um cigarro enquanto o vi comer o segundo prato com deleite. Fiz café. Para a sobremesa ficaram mais histórias, mais memórias.

Almocei caldeirada dois dias depois. Estava picante, apurada com o jindungo de malaguetas indianas que fiz há tempos. Claro que estava boa. Foi temperada com amizade e ternura. Sem mexer.