Alguém me emprestou dois ou três álbuns de Bauhaus. Curioso não conseguir lembrar-me de quem. Era obrigatório gostar de Bauhaus, pelo menos para uma vanguardista em formação que nem eu.
Não os entendia muito bem. Era sombrio, era poderoso, mas não sabia muito bem de que falavam.
Foi a ouvir esta música que me identifiquei com o desalento, com a desilusão, mas também com o grito de genuídade que só a dor nos pode dar. Para mim Bauhaus é esta música que ouvi encostada à janela da sala, em repeat, numa tarde qualquer da adolescência.
Era esta babe, a música de que te falava. Afinal chama-se exactamente como te disse. Nunca te a consegui cantarolar. Fico inibida de desafinar, logo eu solista principal num coro de igreja. Não sei o que aconteceu mas, desde há muitos anos, que só consigo soltar este vozeirão que tenho, sem desafinar, se estiver embriagada. Só assim consigo ir buscar a voz ao diafragma com firmeza e elevá-la até à nota que quiser.
Tu nunca fizeste a menor ideia do que estava a falar. Tens todos os álbuns deles, mas esta música, se calhar muito simples para a complexidade de Bauhaus, era-te completamente desconhecida. Quando cantarolava a letra, fazias aquela expressão “lá está ela a falar de coisa nenhuma”.
Descobri-a hoje e tem estado a tocar em repeat. Para mim não é depressiva, é aconchegante. É como nos enrolarmos no próprio corpo e sentir que nos damos um abraço de conforto.
Estou adoentada, durmo mal e quase tudo corre mal. Já perdi a conta às pessoas que me despacharam ao telefone. Está a decorrer um jantar de uma amiga, recente é certo, que no outro dia se passou cá em casa. Acho que cortou relações comigo. Fui convidada por chat e depois desconvidada por silêncios. Gosto dela, tem a mesma natureza que eu, mas sabe sobreviver melhor. Gosto dela. Alem disso, à volta dela gravitam os “amigos” que tenho agora.
Sai de casa do Reis mais triste do que entrei. Não pelas razões que ele pensa mas antes pela indiferença com que recusou um convite improvisado para jantar ou uma ida à farmácia para me ajudar. Sim, sei que não fez por mal, mas na panóplia de indiferença em que ando, um gesto dele teria feito toda a diferença.
Fui ao super-mercado gastar dinheiro que não tenho em pequenos mimos. Fiz um esforço para lavar a loiça e fiz o jantar.