
Entre ontem e hoje, passei cerca de oito horas na loja do cidadão. Hoje, depois de escrever e rescrever a exposição a dizer que sou pobrezinha e preciso mesmo da ajuda do Estado, cometi uma ilegalidade e fui de carro para lá. Sentei-me ali naquelas salas onde só se espera e se ouve uma buzina irritante de trinta em trinta segundos. Não aguentei e fugi para o nosso quotidiano de love. Lembrei-me da sensação de estar nalgum sitio desagradável e ter a perspectiva de que a seguir ia estar contigo e tudo ia ficar bem. Agora, a escrever sobre isso, lembrei-me do jantar que me preparaste depois de um fecho horrível. Foi tão bom. Depois dessa noite nunca mais stressei tanto com os fechos, nunca mais levei aquilo tão a sério. A sério só te levei a ti, a música permanente, os ataques de riso, as mãos dadas, o amor. Aquele amor tão grande que me encheu de serenidade. Nunca um amor me deu esse equilíbrio, essa paz.
Voltei às salas onde só se espera. Senti-me tão sozinha. Retive as lágrimas, fiz uns telefonemas que ainda me fizeram sentir mais sozinha e fugi de encontro a um café pingado e um pastel de nata. Falei com a cabo verdiana simpática e fiquei a saber de um sitio novo onde se respira Cabo Verde e se come cachupa.
Voltei à loja, fui aos correios enviar um fax que me custou 13 €. Regressei a casa, comprei frango para fazer uma canja. Apesar da constipação, sei que sinto mais saudades de ser feliz do que de ti.
Vejo o teu sorriso no facebook e sinto que já não sei quem é aquele rapaz.
Esta rapariga funga pelo nariz, implora ao Estado por ajuda, conduz ilegalmente e não tem ninguém para ligar às 3 e meia da manhã.
Estou doente, é tudo.