
Acordei mesmo triste. Triste porque queria ter dormido com ele. Era ideal: mais velho, descomprometido, visivelmente encantado comigo, culto, bom conversador e de uma timidez bonita.
Fiquei por aqui, levei ainda com o filme do taxista que veio cá devolver o dinheiro e falei uma hora ao telefone com a irmã (a vida é de facto irónica) que me explicou melhor a confusão que é essa tua cabeça. Uma coisa é bonita de ver: meteste-me na tua vida, nos teus amigos e os mais próximos ficaram a gostar de mim. Até ela.
Mas nem ela me tirou o sentimento de solidão que me assolou. Ontem o palacete foi mesmo isso, uma casa gigante onde me senti pequenina, minúscula, sozinha.
Peguei na merda do carregador que dizes que vens cá buscar e depois nem vens nem me atendes o telefone. E fui. Não estavas, nem a querida amiga produtora, que é tua vizinha, estava. Nem a tua querida amiga gráfica, outra que tem sido uma querida, parece que somos amigas desde há muito, estava. E nem a outra amiga, que mora mesmo a teu lado, estava. É que encontrei uma mesa na rua, mesmo ao pé da tua porta que vai mesmo bem aqui para o palacete. Pedi ao sr da garagem para a guardar. Irei hoje buscá-la.
Deambulei pelo bairro, telefonei-te mais do que uma vez. Ou estavas desligado, ou não atendeste, como gostas de fazer. Como não posso enviar sms, deixei-te mensagens de voz: a 1ª, gravada em casa, pedia-te para me ligares. Queria dizer-te que precisava de te ter por perto. A 2ª, que estava no bairro e tinha o carregador. A 3ª que o deixei no café que frequentas. Depois dessa mensagens, decidi que não falo mais contigo. Não posso, assim nunca mais de esqueço. Se tiver problemas com o Mac ligo para a minha loja ou para os contactos que a produtora tem para resolver essas tecnicidades. Decidi que ia escrever-te um email a pedir o nib, de maneira a que te possa pagar a merda do carregador sem te ver. Não te posso ver mais. Fazes-me mal, com o teu ar satisfeito, a exorcizar a culpa, cada vez que me ajudas. Sabe-te bem, não sabe?
Tomei a decisão e apanhei um táxi, enfiei-me debaixo do edredon. Estava quase a dormir quando ligaste. E eu, depois destas decisões todas, atendi. “Pediste para te ligar...?” perguntas muito descontraído. Liguei, mais do que uma vez deixei-te mensagens. “Ah, então vou ouvi-las”. Foi só para te dizer que deixei o carregador no café. Tchau. Desliguei e enfiei-me debaixo do edredão. E acordei hoje com o mesmo desalento.
Liguei à tua amiga que ficou de me ajudar com a mesa, liguei à minha que não atendeu e, adivinha lá a quem liguei a seguir. Pois, e não atendeste. Era mais prático seres tu a trazer a mesa, está ao lado de tua casa e eu não tenho de sair daqui... Liguei depois ao meu querido vizinho gay que disse que sim, que ia lá comigo. Depois, depois ligaste de volta. E eu... atendi. Pedi-te ajuda, despachaste-me, mas que sim senhora me trazias a mesa, mas que voltarias a ligar. Falaste com um ar indiferente, ficaste zangado, provavelmente, com o telefonema de ontem. Expliquei que tinha de saber se vinhas ou não pois já pedira a outra pessoa. “sim, sim, mas agora tenho um telefonema por fazer, já te ligo”.
Sou mesmo masoquista. Estou por aqui, sem vontade alguma de sair do edredon. Mas terei que sair, arrumar a casa, pôr-me bonitinha. Pensei em te dizer isto e aquilo mas nada te vou dizer. Mas não te quero ver mais.
Para o caso de leres este blog, pois desconfio que o descobriste nas vezes que vieste cá ver o Big, espero que tenhas apreciado a escrita, que, mais uma vez te tenha elevado o ego, pois sempre te fiz isso de uma maneira que ninguém fez. Isso vai chegar ao fim, tal como a minha penitência contigo. Sou uma pessoa bonita, demasiado bonita para ti.