domingo, 6 de dezembro de 2009

A mesa

A pessoa bonita que sou ficou à espera que aparecesses com a mesa. E apareceste. Montaste-a, todo prestável como sempre és. Ofereci-te lanche e aceitaste. Estreámos a mesa. Falaste muito de ti, como é costume. Andas a fazer coisas novas, estás a deixar de fumar, andas a namorar contigo. Pelo menos, vendeste-me essa ideia. E eu senti-me pequenina ao pé de ti. Falei-te do artigo, das crónicas, que confessaste nunca ler, dos leitores assíduos, dos homens que mato na passagem quando saio à noite. Nada te mereceu grande comentário. Falaste mais de ti e agarraste-te ao Big. Ensinaste-me mais umas coisas, não estavas com pressa de ir embora. Estavas bem sentado a meu lado no sofá. Deixaste à vista este blog mas só percebeste que era o meu tal blog pela minha reacção. Pois...

Decidi ir ao cinema, não podia ficar para aqui, a pensar na morte da bezerra, depois de saíres. Tendo o não como garantido, convidei-te. Aceitaste, escolhemos o filme. Fizeste um programa para jantar e até propuseste ir ver as luzes de Natal na cidade mas estava demasiado trânsito. Jantamos, passeamos, vimos brincos para a tua sobrinha de dez anos e mergulhámos no Tetro. Lindo Francis Ford Coppola, lindo Vincent di Galo. Comovemo-nos, discretamente.

Primeiro não, mas depois convidaste-me para um copo. Decidimos vir ao barzinho daqui. Passámos por casa e decidiste que ias embora, outra vez. Nada disse. Depois do cigarrinho afirmei que já me tinha produzido e portanto tinhas de me levar a beber o tal copo. Anuíste.

Falamos imenso, falaste de ti, da tua ex cota. Continuas a achar que ela foi a melhor coisa que te aconteceu, apesar do mal que te fez. Fodeu-te mesmo a cabeça. Lá para o 3º vodka falámos de nós. Confirmaste que ficas contente quando te ligo, quando ouves a minha voz. Disseste que nunca me ligarás.

Sei que te comoveste, mais do que uma vez, ao longo da conversa. Não me lembro de tudo o que falámos, lembro-me que continuas numa de culpa e impunidade. Lembro-me que te disse para não meteres o filhote ao barulho quando tiveres outra apaixonada na tua vida. (Falámos tanto do filhote, da nossa relação a dois, a três, de familia). Disseste que o meterás ao barulho outra vez, pois não queres abdicar de nada. És tão egoísta.

Viemos para casa, já enamorados. Confessámos que não conseguimos ainda dormir com mais ninguém. De novo no palacete, anunciaste outra vez que ias embora. Quando nos despedimos, começámos. Os nossos beijos são mesmo bons, são mágicos. Já me tinhas dito no bar que nunca amaste ninguém como me amaste a mim. Disseste-o convicto de novo, disseste-o com amor. E, melhor do que o sexo (pois continuas a não dar-me um orgasmo) foi o sofá. A alegria. A maneira como disseste que era bonita. Foi aí percebi que me amas. E adormecemos.

Não senti que tenhamos dormido juntos, tive vontade de me masturbar, mas não o fiz. Dormi mal, acordei muitas vezes e, como sempre que durmo contigo, acordei cedo. Continuaste enrolado no edredão para não me tocares. Para sair desse nim, fui buscar o pequeno-almoço, comprei o Público e calculei que irias pensar que aquilo era tudo para ti. Não, era para mim. Sentámo-nos à mesa, estavas de volta ao teu ego e querias fugir daqui o mais depressa possível. Confessaste isso. Pedi-te o domingo. Disseste que tinhas coisas para fazer, precisavas de pensar e vais ter de começar à procura de casa. Pedi-te para nos despedirmos daquela tua cama onde tantas vezes fizemos amor. Disseste que nos falávamos e saíste a correr. Mexo contigo. Muito. Amas-me.

Não fiquei desesperada, fiquei desiludida mas precisava de saber se, no meu intimo, estava certa. Estou, amas-me como nunca amaste ninguém. E sim, isso assusta-se.

Percebi que não podia ficar aqui sozinha. Liguei à nova amiga, vou ao cinema. Escrevi a um amigo para ir a Barcelona. Não sei se vou arranjar dinheiro mas, se ele me der guarida, arranjo maneira de ir. Preciso de perspectivar, de ver que o mundo é imenso e que não posso passar a vida a ajudar a vida dos outros e a deixar a minha para trás.

Não vais ligar e não vai fazer tanta mossa como poderás pensar. Finalmente disseste que sou especial. Talvez um dia queiras amar-me e eu já não esteja por cá. Sei que contas com isso.

Estou de luto e não vale a pena tentar dormir com estranhos.