Por três vezes fizemos amor. Cada vez mais estonteantemente. Na última vez namorámos. Mostraste-me que me amas, ou pelo menos que me queres muito, finalmente disseste que achas que eu não acredito em mim, portanto tu também não o poderás fazer. Dissemos muita muita coisa, falámos sobre tudo e mais alguma coisa, rimos, beijamo-nos, dormimos juntos.
Ligaste ao final desse dia que começou na tarde anterior, convidaste-me impulsivamente para os anos do filhote, dei-te no dia seguinte a prendinha para ele – O principezinho. Sorriste para mim com vontade de me beijar e um telefonema, em que falaste em inglês, acabou com o nosso “tempo”.
Saí com uma amiga, encontrei de novo o tal gajo giro com que tive quase para dormir. Continua a encher-me o ego. Depois escutei a mágoa de alguém que viveu com outro alguém durante dois anos e foi “pai emprestado”. Escutei-o sobre a perda do puto, da família, de tudo o que implica. Percebi que isso me estava a fazer mal, que não queria aquela mágoa para mim e vim para casa. Ouvi e vi música, adormeci vestida.
Depois daquele dia e noite em que finalmente abriste o teu coração, revi os últimos episódios e, pela primeira vez, tive segurança, senti que conseguia dar-te tempo, de te dar para trás, porque tem de ser de vez em quando, e que ia conseguir viver assim. E que isso bastava para ir vivendo a minha vida.
Mas no domingo em que acordei vestida quis que sentisses saudades minhas nos anos do teu filhote e me ligasses. Não ligaste. Fui trabalhar para as eleições. Cheguei tarde a casa, sem ânimo. uma amiga, fez-me uma visita inesperada, deu-me alento, dormiu cá, na mesma cama onde me amaste como nunca, onde me disseste que ressacaste de mim.
Hoje acordei outra vez desfeita, não tanto contigo, apesar de também contigo, mas com os problemas que não param de me bater à porta. Tratei do principio de alguns, tive um mimo do Reis e vim para casa fazer uma canja. Com um esforço transcendental estendi a roupa, já lavei a loiça e, no meio da odisseia do acidente do carro, não resisti a ligar-te. Queria pedir-te para me levares a ver o mar, ao cair do dia. Hoje precisava de ver algo bonito. Não atendeste. Não ligaste de volta. Deves estar nas tuas baralhações sobre a tua ex, a família que perdeste, a família que tens medo de querer. Tens medo de ser feliz. Não queres tentar ser feliz comigo, mesmo que já saibas que não consegues evitar gostar de mim. Mas vais achar maneira, não é? Já estás.
Custa-me escrever, custa-me muito escrever. Custa-me viver. Estou frágil e tu não estás por aqui. E por aqui, anda-se em pequenas vitórias de ir ao seguro, ir buscar o cabo da máquina, estender a roupa, fazer uma canja. Por aqui vive-se o dia possível. A minha vida está cheia de nós e nozinhos e laços apertados que não consigo deslaçar. Hoje queria só que me abraçasses, me fizesses uma festa no cabelo e me dissesses que tudo se há-de resolver.
Quero apanhar um comboio para longe de mim.