sábado, 13 de março de 2010

Almôndegas com amor

Chegam a casa dele depois de uma praia ao pôr do sol. Ela quer cozinhar, dar-lhe um mimo a fechar o fim de semana perfeito.

Procura por entre as gavetas do congelador e tira uma embalagem de almôndegas. Senta-se na varanda a apreciar a brisa de uma noite quase de verão. Faz um gesto de cansaço, nota-se que está extenuada.

Ele senta-se a seu lado, finge que não percebe e faz conversa. “Porque não me deixas fazer o jantar e tu ficas aqui a falar comigo”?

Ela hesita mas acaba por anuir e liga o gravador. A música ecoa pela varanda, um dub simpático preenche a cozinha. Acende um cigarro, filtro branco, a lembrar as divas dos filmes noir.

Risse ao vê-lo cortar os alhos, tira a casca ao bocadinhos, com as mãos. Nada diz. Ele passa a cortar a cebola com uma faca grande, num estilo profissional, em fatias finas.

“Não há batatas” comenta e vai à despensa. “Vou fazer arroz de manteiga, os bicos do fogão são demasiados fortes para o arroz frito”. Com um sorriso, ela agradece o poder de decisão enquanto ele despeja um fio de azeite no tacho e acende o lume.

Agora um jazz ligeiro flutua enquanto ele refoga as cebolas e acrescenta tomate cortado aos bocados. Ela percorre–lhe o corpo com o olhar. “Gosto de ti, cozinheiro”.

Ele sorri-lhe, ergue a mão fechada e diz: açúcar, canela, e umas gotas de limão: a perfeita trindade. Ela devolve-lhe o sorriso e estende as pernas por cima da mesa, desnudando os joelhos. Ele acrescenta às almôndegas uma folha de louro, uma pitada de pimentão doce e uma gota de vinho branco. A seguir tira o arroz do lume, põe-lhe uma noz de manteiga, mostra-lhe o tacho e pergunta-lhe se é suficiente. “Mais. Arroz de manteiga tem de saber a manteiga”.

Fumam um cigarro enquanto as almôndegas acabam de cozinhar. Trocam gestos sensuais, beijos fugidos, entrelaçados, molhados.

“Inebriante”, diz ela a seguir à primeira garfada, após uns segundos de silêncio. Ele sorri-lhe com os olhos. Tocam à porta. É o amigo que divide o apartamento com ele.

Saem direitos à casa dela. Deitam-se na cama e beijam-se devagar. Despem-se um ao outro. Moldam-se, enrolam-se, fundem-se.

Fico sentada, imóvel, ao som da musica romântica, até as letras do genérico desaparecerem. Sou a última a sair da sala.

Está um tempo horrível, a chuva traz-me à realidade fria. Chego a casa ensopada. Fervo água e janto umas noodlles chinesas de pacote. Abro o portátil, começo a trabalhar e varro da memória essa história bonita, intensa, com um daqueles finais felizes que só se vêem no cinema.

( Este a olho já foi punlicado há uns tempos, esqueci-me de o trazer para aqui)