Até a amiga actriz, a minha guru nesta odisseia, ficou espantada com as tuas palavras. Agora era só eu estar linda, maravilhosa e disponível de 15 em 15 dias- a tua provável disponibilidade para me ver. Que assim, sem te cobrar nada, sendo como o que queres que seja, um dia irás acordar e sentir que me queres, que te faço falta nessa tua vida tão ocupada. Concordei, concordei com todas elas (as amigas do coração) que, de uma maneira ou de outra, disseram o mesmo. Sei que é assim, que é esse o jogo a jogar em cima da mesa.
Mas, dois dias depois sem saber de ti, telefonei-te por causa do teatro infantil, há muito combinado. Convidei-te para almoçar. Não podias, estavas muito ocupado, blá, blá, blá, beijinhos, adeus e um queijo.
Liguei ao realizador produtor e fui almoçar com ele e um amigo. Andámos pelas tasquinhas típicas de Lisboa e, não fosse o amigo, tê-lo-ia beijado. Apeteceu-me imenso, para minha surpresa. Foi divertido, vim embora para continuar a vida. Tratei de pôr o carro numa garagem, acabei por fazer depilação e arranjar os pés. Finalmente encontrei uma profissional à altura dos meus desgraçados pés. Fui tomar conta da sereia loirinha. Depois senti-me imensamente sozinha naquela casa enorme. Percebi que isto vai sempre ser assim. Que vou estar ligada a ti, sem que estejas ligado a mim. Que será sempre “leve e descomprometido”. Poderei estar mais um ano a ligada a ti, tu continuas o ocupado contigo. Quero isso para mim? Quero um amor aos bocados? O que ganho com isso? Acabarei por não fazer nada por mim, e ficar agarrada a esses bocados perfeitos que se esvaziam quando o fim de semana acaba.
Uma solidão abalroo-me. Liguei ao produtor realizador que me aturou durante meia hora. Passou e entretanto a amiga actriz chegou. "As relações hoje são assim. Vêm depois de tudo o resto porque o resto é que é importante. Que eu nem sonhasse em me desses mais do que alguns momentos por semana. Que telefonar-te só adiou a tua próxima iniciativa. Eu sei. E cada vez sei menos se quero isto para mim.