sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Na minha cara

Beijámo-nos. Vê lá tu a minha sorte em nos dares meia hora. Meia hora de amor, depois da cena quase humilhante. Primeiro pensei que decidiste fazer amor comigo só para me tirares dali. Depois o meu babe apareceu, pôs música e foi buscar um aquecedor, sabia que eu ia ter frio.

Despiste-me devagar, a sorrir, com afecto. Quando o sexo começa com a frase “queres pôr-te na minha cara”, só pode ser bom. Foi. Para ambos, juntos. Talvez o melhor sexo que alguma vez fizémos. No fim, dei um grito profundo de prazer. Não conseguiste dar-me um orgasmo mas participaste nele. Foi bom. Deitaste-te ao meu lado à conversa. Precisavas de ajuda para tomar conta do filhote na manhã do dia da mudança. Disseste que haveria de dormir em tua casa... de vez em quando. Depois lembraste-te de que não tinha boleia para casa, não me porias na rua. Retorqui que apanhava um táxi, para tua satisfação, tinhas de “acordar às sete e meia”. Ficaste a apreciar-me enquanto me vestia. “Pensei que preferias ver-me despir”, brinquei. Saí ciente das regras do jogo.

No dia seguinte quase chorei ao telefone com a amiga produtora que me disse “para deixar rolar”. Não chorei tanto pela nossa não relação. Chorei por este vazio na vida que me dá espaço para pensar demasiado em nós. “Não sei por onde começar”, disse-lhe entre lágrimas. “Começas por uma ponta qualquer”.

Ontem levantei-me às nove, trabalhei para o jornal, falei com a advogada por causa da merda das despesas do tribunal, falei com a seguradora do carro e a terminar o dia dormiu cá ter a amiga de sempre para me dar uma boleia .

Deitei-me cedo, acordei mais do que uma vez e sai da cama às sete, antes do sol nascer. Escrevi e escrevi de rajada. Estou tranquila. Não sei por onde começar mas quero a minha vida. Por mim primeiro, depois para te mostrar qualquer coisa, que não sei o que é.

Decidi também outra coisa. Depois de perguntar sobre o que farias se te encontrasse numa discoteca com outra, respondeste: “Hum, pois não sei, mas somos livres, claro. Mas não me verás numa discoteca com outra porque não estou interessado noutra, estou interessado em ti. Mas se calhar irei encontrar-te numa discoteca com outro e não sei o que irei sentir”. Tens boas respostas, sim senhor. Foi por isso mesmo que decidi que não me verás numa discoteca com outro mas, a partir de hoje, fodo com quem me apetecer. "Livre e descomprometida", como queres que seja a nossa não relação. Provavelmente vou sentir-me mal, mas solta de ti.

Precisas de ajuda com o filhote amanhã. Duvido que ligues a pedir. Não interessa. Eu tenho não sei bem o quê para fazer mas acabará por me ocorrer qualquer coisa.

Por hoje, tratei da roupa, apanhei um frio de rachar no trabalhinho, almocei com os papás, tratei dos mails e fui ver do Ganso à oficina. Encerro o dia com um cigarrinho para rir. Não tarda muito, estou enfiada no edredon com o pijama dos ursinhos verdes.