Acordei angustiada, passei a manhã toda nisso. Vai sempre ser assim, não quero isto para mim. Depois de uma hora ao telefone com a amiga de sempre, conclui que não quero, que não consigo fazer isto. E acabei por te ligar. Primeiro estavas com pressa, depois querias desconfirmar o teatro, pois coincidia com a tua mudança de casa, depois não tinhas tempo para me ver hoje e vais andar a trabalhar até altas da horas da noite. Recebi o recado. “Então, é mesmo por telefone”. Engoli em seco e continuei: “Não consigo fazer isto”. Silêncio. “Está bem”. “Está bem”? “Não, não está nada bem. Posso ligar-te à noite que agora não tenho cabeça"? “Podes, mas se não ligares, está feito”, e desliguei. Fiquei satisfeita com o meu poder de decisão e com a tua vontade em me ouvir.
Lá falei mais meia hora ao telefone com a amiga de sempre e fui trabalhar, sem ânimo. Iria acabar hoje, era o mais provável, mas era o melhor para mim. Ainda arranjei as unhas das mãos antes de meter no metro. Depilação feita, sentia-me segura e, sinceramente, o que me apetecia era que não houvesse grande conversa, nada de pesado, apenas amor. Físico, intenso, bom.
Percebi na ansiedade em que iria ficar até ligares, depois de deitares o filhote. Para te ter nesse dia, teria de ir ter contigo. Com um sms arranjei maneira de o fazer e lamentei ter-me esquecido do estojo de maquilhagem.
“Sou todo ouvidos”, disseste quando te sentaste no sofá, sem me beijar.
Falei devagar, que não queria uma conversa pesada, não queria entrar na tua vida como antes, que precisava também do meu espaço. Queria apenas ir sabendo de ti, que me contasses da casa nova, que não me despachasses ao telefone. Ao me afastares assim, davas espaço ao outro”. Ouviste em silêncio. Depois, sem pestanejar, disseste que assim não dava, que o que tinhas para oferecer era muito pouco, que estavas numa fase egoísta e egocêntrica e não tinhas tempo para mim. Que eu precisava de alguém que estivesse lá para mim e não eras tu esse alguém. Eu que fosse para os braços do tal outro, o que me dá conforto. Sem pestanejar.
Disse que não era assim, só queria sentir-me ligada a ti, para isso não era preciso ver-te, era apenas preciso que algum mimo, alguma atenção e até queria saber como é a tua casa. Foste buscar uma planta, explicaste onde era o quarto e a sala mas mantiveste o teu ponto de vista. Recusaste os meus abraços e, por mais do que uma vez, deste-me a atender que querias que fosse embora. Ponto, final, parágrafo.
Foi aí que percebi que não conseguia sair dali. Não me consegui levantar do sofá e nunca mais te ver. Não consegui. Perguntei o que tinha sido aquela conversa na outra noite, repeti que se duas pessoas se querem é uma estupidez não darem uma hipótese a esse amor, e a vida não faz sentido sem ele. Quase, quase chorei. Perguntei-te se não gostavas de mim, não conseguiste dizer isso, mas disseste algo que queria dizer o mesmo. Não me lembro da frase.
Não acreditei. Não sabia onde pôr as mãos, o corpo, não sabia o que fazer. Fiquei sem argumentos, levantei-me e voltei a tentar abraçar-te. Quiseste rejeitar-me mas não conseguiste. Já de pé, abraçada a ti, disse-te que tinha uma langerie da cor da tua camisola. “Não me faças isso”, respondeste.