Passei então à questão e dei-lhe uma única pergunta: o que sentes por mim? Retorceu-se e torceu-se, mudou de assunto. Dez minutos depois, fi-lo responder, mas sem repetir a pergunta.
Aí, ele pôs as mãos nas pernas, falou com uma voz terna e sincera, como os miúdos que finalmente contou a maldade que fizeram, e disse: tenho muitas saudades tuas.
Houve um peso que se eclipsou do meu corpo, o meu estômago ficou leve, causando-me um prazer físico. Até ele completar a frase: sinto imensas saudades tuas como minha amiga, conheço-te bem, tu conheces-me como ninguém, e tenho mesmo saudades de nós... amigos. Disse-o com um sorriso, com um grande alivio de ter dito uma grande verdade.
Aí resolvi a minha interminável dor. Não tive pena dele mas desapaixonei-me ali, assim que percebi a sua total inconsciência, infantilidade ou alienação do que aquelas palavras me poderiam magoar. Resolvi, de facto, a minha interminável dor.
Ligaram-me de um número que não conhecia interrompendo aquilo que eu chamei um filme de série B. Respirei para ouvir a mensagem de voz que não passava de sons estridentes que me feriram o ouvido mais do que as palavras dele me magoaram.
A partir dali, falei com calma, de coração aberto, sobre corações abertos. Com ternura, sem rancor, falei-lhe dos carrosséis de emoções que, "sem estar a reparar", me fez passar. Das vezes que também eu entrei em pânico, que olhei para ele e só consegui ver defeitos, das vezes que nada senti, mas confiei que, com calma, o meu coração me havia de guiar de volta ao dele. Que fiz mais do que me apaixonar por ele. Investi numa vida com ele e com o filhote.
Falei-lhe da dor que sinto assim que abro os olhos e que me acompanha para todo o lado. Do esforço que fiz para continuar com a minha vida normalmente, porque ela, apesar de mudar 180 graus, tinha de continuar. Que remédio tinha eu, senão o de andar com ela.
Falei-lhe da falta do meu babe que desapareceu sem deixar um bilhete e no lugar dele ficou aquele gajo que só pensa nele. Do que me custou ter estado no domingo, ali, lado a lado durante cinco horas, com ele numa postura automática de gajo porreiro a arranjar-me o computador. Eu, sem saber se, no meio daquela confusão, me queria ou não.
De dar banho ao filhote dessa vez e hoje. Mas hoje, escolhi jantar com eles. Qualquer bocadinho com o filhote é bom. Aliás, era nesse projecto que eu estava a investir. Numa família. Com consciência de que tudo estava a ser muito rápido, mas era uma responsabilidade que abracei e que implicava outra comigo. Queria estar numa família onde se orgulhassem do que faço, do que sou, de ter tempo e disponibilidade para lá estar. De ajudar a educar e amar o filhote, nunca querendo ocupar o lugar de ninguém. Que o filhote me dissera baixinho, enquanto fazia os trabalhos da escola: a mãe é muito fixe mas tu podias fazer de mamã quando eu estou nesta casa.
No fim, olhei-o nos olhos, com ternura e dor. Disse-lhe que descobrira agora que ele não era uma pessoa sensível, ao contrário do que pensava. E que de facto, não gostava de mim. Gostava da energia que sempre lhe dei, da inspiração, na alegria, no apoio, no amor. Tinha saudades disso, não tinha saudades minhas.
E assim fiz as minhas pazes com o rapaz com ar inseguro e simpático que conheci naquele bar fora de horas.
Naquele momento foi claro para mim e partilhei este pensamento com ele: há um mês que tenho a certeza de que não gostas de mim, Hoje, saio daqui, a duvidar disso.
Acendi um cigarro e disse que me ia embora a seguir. Que tinha de andar para a frente com esta minha vida. Que lá teria que beijar mais um sapo, pois ele afinal não era o meu príncipe. Que continuo a acreditar no amor.
Que trabalheira, agora ter de recompor o meu coração partido. Amei-te, ainda te amo, e queria apaixonar-me para a semana, para te esquecer, assim, num ápice. Mas não é tão simples.
Disse que ia à festa do Lux, ele sorriu e disse boa! Não me apetece nada, respondi, mas vou, é a tal trabalheira de ter que andar com a vida para a frente.
Não devia ter dito, mas nesta altura gostar dele já não me sufocava: Se descobrires, no meio da tua incerteza que gostas de mim, seria uma verdadeira parvoíce não correres atrás. Mas será uma maratona e qualquer gajo com olhos bonitos leva 20 km de avanço.
Depois falámos do filhote, de fazer babby sitting. Ele, finalmente comovido com um sentimento que não o seu, brincou: sim, é uma excelente ideia, estou rodeado de família aqui no bairro mas nenhum é lá grande exemplo para o meu filho. E ele gosta mesmo muito de ti.
Eu também gosto muito dele, ele é o melhor de ti, respondi. E é mesmo.
Saí à rua, muito mais leve. Não sei onde ficou aquele peso todo com que entrei.
Estava uma noite de verão. Decididamente ia ao Lux. Antes de ligar ao amigo gay (há melhor companhia?) liguei ao tal numero desconhecido. Era a Ana, a minha senhoria a perguntar pelo mês de renda em atraso.